1 de julho de 2011

O mecenato ganha a rede

A cantora gaúcha Gisele De Santi lembra a madrugada que passou em claro para produzir um vídeo amarrando uma entrevista sua a trechos de shows e de um clipe. O material seria postado na internet a fim de apresentar o projeto “Chama-me”, um espetáculo seu previsto para acontecer em Porto Alegre, e angariar fundos para sua realização.

O site em questão? Catarse.me, uma recém-criada e promissora plataforma colaborativa de financiamento em que os internautas desembolsam pequenas quantias para patrocinar projetos e ajudar a tornar realidade os sonhos de seus autores. A página faz parte de um movimento maior, o chamado crowdfunding, que se consagra como um tipo de mecenato pós-moderno e começa a ganhar força por aqui. “Os editais de financiamento não atendem à demanda de projetos culturais existente no Brasil. O crowdfunding vem como uma forma mais democrática, direta e pessoal para conseguir patrocínio. É o público quem decide quais projetos serão atendidos. E isso é maravilhoso”, conta Gisele, que tinha até 31 de maio para arrecadar os R$ 8.750 de que precisava para realizar o show de 90 minutos, planejado para este mês no Teatro do CIEE, na capital gaúcha. “Penso em utilizar o crowdfunding para outros projetos de show. Para álbum, é uma possibilidade mais adiante. O público ainda está conhecendo como funciona. Mas acredito que é o tipo de ideia que veio para ficar e sacudir as velhas estruturas de captação de patrocínio, trazendo mais interação entre público e artista. Serve até mesmo como uma consultoria, para saber qual é o número de pessoas que se interessa por determinado projeto, e se, então, vale a pena executá-lo”, completa ela, que conheceu o Catarse.me por meio de sua produtora, Kika Lisboa.

funcionamento das plataformas desse tipo que já atuam no Brasil (em torno de uma dúzia) é semelhante. Em geral, o autor cria seu projeto e posta-o no site — após um criterioso processo de aprovação, como uma curadoria — dizendo de quanto dinheiro precisará para tirá-lo do papel, em busca de incentivadores. O esquema é com base no conceito do “tudo ou nada”. Se a quantia estipulada como meta for alcançada dentro do prazo fixado (em geral, de 30 a 45 dias, mas podendo chegar até 90), o valor vai para o autor, e o “patrocinador” ganha recompensas exclusivas estabelecidas previamente pelo dono do projeto, como incentivo. Caso não se levante a grana necessária, a verba volta para as mãos do colaborador. Dessa forma, ninguém perde. Simples assim.

O Catarse.me (www.catarse.me), que abrigou o projeto de Gisele, é considerado a primeira plataforma por aqui, nesse formato colaborativo, a fomentar projetos criativos (de espetáculos de dança a propostas de literatura, jornalismo, fotografia, arquitetura...). Antes de seu lançamento, em janeiro deste ano, já fazia sucesso no país o Queremos (www.queremos.com.br), que mobiliza virtualmente multidões para financiar a realização de shows – e, segundo seus fundadores, nasceu de uma necessidade: diversos eventos internacionais estavam vindo ao Brasil, mas não ao Rio – e já trouxe a palcos cariocas nomes como Miike Snow, Belle & Sebastian, Mayer Hawthorne, Two Door Cinema Club, Vampire Weekend e LCD Soundsystem. Também era popular o Vakinha (www.vakinha.com.br), que levanta dinheiro para de tudo um pouco (da compra de alianças para casamentos à vacinação de animais, passando pela reconstrução de casas). Mas a proposta do Catarse.me tem outro escopo, conta Diego Reeberg, fundador em parceria com Luis Otávio Ribeiro.

“Eu e o Luís queríamos empreender alguma ação inovadora, e procurávamos iniciativas que estivessem acontecendo com sucesso no exterior. Chegamos à plataforma americana Kickstarter (veja mais na página 10 desta reportagem). Era tudo de que precisávamos: uma forma de a internet promover uma mudança social e, ao mesmo tempo, atender a uma demanda de nosso mercado, já que por aqui falta financiamento para projetos criativos”.

Em novembro passado, os sócios começaram a pavimentar o caminho para a divulgação do site: criaram um blog com posts diários para apresentar e discutir o conceito do crowdfunding. Essa exposição pré-lançamento foi decisiva: dos cinco projetos que estrearam no Catarse.me, quatro chegaram ao site via blog. Em seus três primeiros meses de funcionamento após a estreia, a página já somava 990 apoiadores; havia registrado 1.206 apoios; tinha 4.088 usuários cadastrados, e arrecadara R$ 97.300 para 23 projetos (mais da metade deles bem-sucedida). Um mercado dinâmico, que muda a cada momento: no fim de abril, por exemplo, o Catarse.me uniu esforços com a plataforma Multidão (www.multidao.art.br), formando o Grupo Comum (www.comum.cc). Dinâmico e repleto de experiências comoventes.

“Um projeto que nos tocou muito foi o Villa-Lobos in Jazz. Eles haviam sido convidados para apresentações na Suíça e na Alemanha, e precisavam levantar R$ 5 mil para a viagem. Nas duas últimas horas restantes para expirar o prazo no ar, ainda faltavam R$ 300 para atingir a meta. Foi tenso, mas eles conseguiram. Estavam acompanhando os momentos finais pelo Skype, e ficaram emocionados”, lembra Diego, recordando outras iniciativas de música, como o Movimento Elefantes, que alcançou seus R$ 1.980 para prensar 1.000 CDs, e a proposta de gravação do terceiro álbum do sexteto Luísa Mandou um Beijo, que pedia R$ 5 mil até o fim de maio.

A seleção para decidir quais projetos levar adiante é rigorosa: dos 200 recebidos pelo Catarse.me até abril, pouco mais de 10% foram postos no ar. De forma semelhante atua o carioca Movere.me (www.movere.me), funcionando desde março após um ano de desenvolvimento da ideia, conta o fundador Bruno Pereira, sócio de Thiago Fontes, Enzo Motta e Bernardo Tausz na empreitada.

“Compartilhamos a oportunidade de ajudar as pessoas a realizarem seus sonhos. No Brasil, é difícil arrumar verba. No crowdfunding, o público diz: ‘o dinheiro é meu e vai para este projeto’. é diferente dos recursos provenientes de nossos impostos, administrados pelo governo, sobre os quais não temos controle”, comenta ele, que tem discutido como aumentar o tamanho do mercado, que hoje se concentra, especialmente, no eixo Rio de Janeiro - São Paulo, com uma esticadinha para Minas Gerais. “O Sudeste domina a participação, mas queremos estender isso. O grupo Mombojó, de Pernambuco, por exemplo, já sinalizou que gostaria de participar da iniciativa para viabilizar a realização de shows em algumas cidades”.

Entre os projetos de destaque que já passaram pelo Movere.me, estão alguns apaixonantes, como o do grupo Sururu na Roda, que tinha até o fim de maio para levantar os R$ 34 mil necessários para gravar um CD com canções de Nelson Cavaquinho numa homenagem ao centenário do compositor. “O que me move? O que nos move é Nelson do Cavaquinho”, dizia Nilze Carvalho, vocalista do grupo, no vídeo de apresentação do projeto no site, respondendo à instigante pergunta-padrão do Movere.me. Como estímulo para quem investe, o Sururu na Roda oferecia recompensas como chope com a banda num bar; jantar com os integrantes; tour por lugares tradicionais para o samba no Rio; um dia acompanhando a gravação do CD, e até show acústico exclusivo (tudo variando de acordo com a faixa de valor doado).

As recompensas, aliás, pretendem aproximar ainda mais o público dos projetos em que aposta. “queremos que o cara que deu o dinheiro tenha uma experiência legal. Pode ser um almoço, uma habilidade que o artista tenha... A cantora Carrah Flahive, por exemplo, vai preparar cookies para incentivadores que a ajudarem a gravar o CD ‘The Tumbling Years’. é uma ferramenta afetiva para incentivar a coletividade”, explica Bruno, recordando que a Banda Ganeshas, que levantou os R$ 1 mil necessários para a gravação do clipe “Jesus”, oferecia de um jantar romântico com seu baixista (a recomendação era levá-lo ao Bob’s) a uma partida de boliche com os integrantes.

Outra recém-chegada à rede é a Benfeitoria (www.benfeitoria.com), lançada no fim de abril pelo casal Tatiana Leite e Murilo farah, com o sócio Raphael Chabar. Eles a definem como a primeira “gratuita”, por não cobrar comissão dos autores, caso o projeto seja viabilizado – o que varia, dependendo da plataforma, de 5% a 15% sobre o total arrecadado. “Não somos contra a comissão. Ela é justa, diga-se de passagem. Mas as taxas de transações financeiras no Brasil já são muito altas. Se ainda fôssemos pôr 5% de comissão em cima, isso poderia desencorajar a realização de projetos. Pensamos em outros modelos para obter receita, como parcerias com grandes empresas e serviços freemium (opcionais pagos). Mas ainda não sabemos como isso vai funcionar, é tudo muito novo”, explica Tatiana, que pôs a página no ar com seis projetos, entre eles a viabilização do terceiro disco da banda Jazzafinado e a produção de um aparelho de identificação de setores de baixo custo para deficientes visuais.

Justamente por este ser um mercado ainda a ser desbravado, e que por vezes enfrenta a desconfiança do público, a competição entre as diversas plataformas tem sido bastante amistosa. E colaborativa, como prega a própria filosofia do negócio. “As plataformas precisam se unir, apesar de serem concorrentes, porque essa cultura está apenas começando. Mas já sabemos que temos nas mãos uma ferramenta poderosa, inclusive de pré-venda, pois elimina o risco. Primeiro você vende, depois é que produz. Ou todo mundo ganha, ou ninguém perde”, afirma Tatiana.“As possibilidades do mercado são muito grandes. Vale mais a pena que divulguemos juntos, e, assim, cresçamos todos juntos. Por isso, fazemos uma série de eventos em parceria”, conta Diego, do Catarse.me, alertando para a necessidade de seriedade dos empreendedores. “Apesar do pouco tempo, já houve plataformas que não deram certo. É preciso haver transparência quanto à destinação do dinheiro, ainda mais num segmento em que já há uma desconfiança natural. Planejamos, por exemplo, expor as nossas contas na internet”, conclui.

COOPERAÇÃO VIRTUAL AVANÇA NO EXTERIOR

O grande inspirador para o movimento de crowdfunding no Brasil foi o americano Kickstarter.com. Fundado em 2009, já serviu de cenário para que 380 mil pessoas solicitassem mais de US$30 milhões para realizar, no esquema “tudo ou nada”, seus projetos – muitos deles fascinantes, de documentários a livros ou discos. Seu projeto de maior sucesso foi o Diaspora, uma rede social baseada no peer to peer, que garante a privacidade das informações dos usuários. Seus idealizadores pediram US$10 mil e acabaram arrecadando mais de US$200 mil, envolvendo seis mil pessoas.

Outro estrangeiro que permite o financiamento de projetos – mas apenas musicais – é o Microfundo (microfundo.mymondomix.com). O conceito, aqui, é diferente: o público coopera pagando uma anuidade ao instituto de microfinanciamento, que faz a gestão desse fundo para investir em gravações, shows e turnês dos artistas. Em troca, o colaborador tem vantagens como acesso exclusivo a centenas de discos produzidos e descontos em ingressos.

Mas tais ações colaborativas não estão livres de percalços. O SellaBand.com, selo online holandês que grava discos com dinheiro arrecadado entre fãs, por meio de crowdfunding, foi lançado em 2006. Em 2010, porém, foi à falência. Mas logo voltou à ativa, ao ser adquirido por investidores alemães. Ao todo, cerca de 60 discos já foram gravados, e aproximadamente 4.200 artistas estão cadastrados no site. Entre eles, o brasileiro André Abujamra, cujo projeto, postado em dezembro de 2006, precisava levantar 39.400 euros.

Matéria publicada na Revista da União Brasileira de Compositores (UBC) – 09/06/2011. Por Ana Lúcia Borges.

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