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31 de março de 2011

Cólera em Belém: A confraria do Punk Rock

Depois do RDP, Inocentes, Garotos Podres e Replicantes, faltava apenas uma banda clássica dos anos 80 a pisar em solos paraoaras: Cólera, uma das primeiras bandas punks do Brasil (Olho Seco não conta, pois já acabou).

Lembro quando comprei, em 1985, pelo correio, o Sub, segunda coletânea em vinil de punk do Brasil (a primeira foi o Grito Suburbano e ambos continham o Cólera). Fui o primeiro a ter esse disco na cidade e ele foi meu cartão de entrada no pequeno movimento punk que insurgia por esses lados.

Lembro também que décadas depois, várias pessoas tentaram trazer o trio liderado pelo vocalista/guitarrista Redson: Azul (do blog Música Paraense.Org); Del (do festival Rock Contra a Fome) e eu mesmo, que insisti por dois anos com o Marcelo Damaso para ele trazer a banda para o Festival Se Rasgum.

Foi preciso o jovem e articulado Kaká (do selo Xaninho Discos Falidos e integrante das bandas Derci Gonçalves, Primos de La Beata e Escárnio), que nos anos 1980 deveria ser um bebê, para concretizar o mesmo. Isso com a ajuda de poucos amigos, colaboradores e apoiadores, num sistema totalmente Do IT Yourself.

A espera foi longa. Para mim e para amigos que não víamos há anos em shows, que se mesclaram com velhos e novos fãs, resultando num crossover de seres diversos que se aglutinaram no Açaí Biruta no dia 19 de março.

Com o salão não tão cheio (maldita chuva), Nó Cego começa as ainda tímidas rodadas de pogo com seu punk rock ramonizado. Contando agora com André Formigosa na bateria, a banda mostrou que um bom punk rock é como um bom vinho: Quanto mais velho e quente, melhor. O veterano baixista Cláudio Darwich agita como um adolescente (mostrando o vigor que manteve de sua antiga banda Insolência Públika, aliás, a primeira punk da cidade), enquanto seu irmão, Sérgio Darwich (o Seu Madruga do punk-rock paraense), destila suas letras ácidas e irônicas, marca registrada deles. Impossível não notar do mezanino/camarim, de onde eu estava nessa hora, Sérgio Barilow, primeiro baterista do Nó Cego, e que organizou shows memoráveis na cidade nos anos 1980 como Rock 1 (no saudoso teatro Waldemar Henrique) e Clube do Rock (no extinto Lapinha), curtindo sua ex-banda.

Delinquentes é a seguinte. O som estava porrada e alto e pela primeira vez ali naquele local ouvíamos bem o retorno. Segundo alguns amigos, os timbres da guitarra e baixo estavam pesadíssimos, o que combinou bem com nosso estilo crossover, embora tivéssemos preparados um repertório mais hardcore. Notei que o Pedrinho (GT) estava mais empolgado que o de costume, deixando-o mais solto para soltar seus riff’s afiados à vontade, enquanto Raphael (BT) e Pablo (BX) seguravam a base com a firmeza que lhes é peculiar. Alguns amigos e fãs não iam a nossos shows há anos e eles demonstraram saudades, cantando as músicas conosco e com nosso público habitual.

Com a eficiente produção de palco do Azul, tudo era bem rápido e chega a vez do Licor de Xorume. Com uma grande responsabilidade nas costas, de abrir para o Cólera, a banda não decepcionou, logo botando a galera mais hardcore para pogar com seu som direto e agressivo. Levaram covers clássicos como Inocentes, Olho Seco e Psychic Possessor. Impossível ficar parado. Mostraram também sua cara própria com músicas com fortes refrãos como “Filhos de Eldorado”. O baterista Daniel tem uma pegada segura e notei que o Fabrício está com um vocal bem mais raivoso que antes, dando um puta gás extra à banda. Com dez anos de estrada, o Licor de Xorume mostrou ter uma grande empatia com seu público.

Mas tudo isso era apenas um aperitivo para o prato principal do dia, de um banquete de punk rock saudosista que apenas começara. Com os primeiros acordes do Cólera (saudando a nossa região com a intro tribal de “Qual a Violência?”), a galera botou a poeira pra subir, provando que nem só de reggae vive o Açaí Biruta, com verdadeiros clássicos sendo entoados pelo trio. Val (com sua marcação cerrada no baixo), Pierre (que fez escola com sua forte e tradicional batida punk) e Redson (que não para no palco um minuto) fizeram o público pular e cantar suas letras de cunho político-ideológico-social que marcaram uma época. A cada música, o público delirava. E foi assim com “Funcionários”, “Palpebrite”, “Medo”, “Pela Paz”, “Deixe a Terra em Paz” entre outras de todas as fases da banda, que foram ecoando pelo rio Guajará afora...

A emoção era nítida também no gargarejo, onde eu também estava, espremido. De lá pude ver o Azul, Kaká, Sandro-K (Abunai), Jusa Sombra (roadie do Delinquentes que acabou sendo chamado para ajudar a headliner), assim como o fotógrafo do jornal Diário Marcelo Lélis e o próprio roadie do Cólera, Wendell (da banda paulista Sociedade Sem Hino), todos cantando as músicas enquanto trabalhavam no palco. Até os membros da Pró Rock, enquanto produziam seu programa Pará Underground, pareciam estar contagiados.

O show do Cólera é uma aula, pois mostram que com simples acordes bem executados e com uma harmonia ímpar inserida no hardcore, conseguem cativar a muitos. Vale ressaltar a presença de fãs de outros lugares, como Breves, Castanhal e até São Luís e Macapá.
Já eram umas duas da matina quando a banda desceu do palco, e depois de uma rápida ida ao camarim, saíram e bateram longos papos com os sobreviventes, provando que a humildade não se desgastou com o tempo.

Com a alma lavada e um olho roxo (de uma cabeçada que peguei), constatei a nítida satisfação nos rostos das pessoas, incluindo até os apoiadores, como o pessoal do curso Exemplo (que sempre foram fãs do Cólera), Dudú (Davu-K) e o Garapa, que nessa hora já havia largado a banquinha do Veg Casa para curtir.

Como bem disse no microfone na hora de nossa apresentação, mais que um simples show, tratava-se de uma verdadeira confraria. Em que cada um ali presente deu a sua contribuição para que fosse bem sucedido. Desde o público, amigos que ajudaram (alguns até com dinheiro), bandas de abertura, apoiadores, Kaká (pela iniciativa e coragem) e principalmente, pela lenda viva do punk nacional, Cólera, que nos brindou com seus hinos pacifistas, numa festa que não víamos há anos na cena punk rock local. Um brinde a todos nós.


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Pará Underground 002


Está no ar a segunda edição do Pará Underground. O programa experimental da TV Pro Rock. Neste programa você verá reportagem com o luthier Maikon Santa Rosa e a cobertura exclusiva do show do Cólera em Belém, realizado no dia 19 de março. Depois que voce ver o programa todo, clique no botão anunciado por João Barros para ver a gente entregando a camiseta da banda Norman Bates para a vencedora da promoção: Ericka Moura.

Direção: Nicolau Amador. Apresentação: João Barros. Reportagem e produção: Nicolau Amador, João Barros e Lucas Monteiro. Edição de video: Lucas Monteiro.
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